2ª TEMPORADA DE ANCELOTTI NO REAL MADRID



O plantel do Real Madrid é composto por jogadores de um nível elevado, não há dúvida, mas o trabalho do treinador potencia esse talento. As qualidades de cada um podem ser minimizadas, e assim reduzir o coletivo, se não se ajustam com as do resto dos companheiros. O plantel do Real Madrid é diferente do plantel do ano passado, de modo que o tipo de futebol resultante também será diferente. Neste artigo, vamos analisar essas mudanças e como elas afetaram o desempenho da equipa nas diferentes competições disputadas pelo atual campeão da Champions.


O INÍCIO DAS ACÇÕES DE ATAQUE

Com José Mourinho, cada vez que os centrais eram portadores da posse de bola, a estrutura apresentava duas linhas muito diferentes. A ideia baseava-se em que os jogadores mais ofensivos dispusessem de espaços significativos para que cada conexão entre eles pudesse ser uma ação de perigo para o adversário. Os laterais e o Alonso procuravam espaços mais perto dos centrais e Ozil procurava determinados espaços à frente dos dois médios centros, quer seja para receber a bola ou para permitir a recepção de algum avançado.
James e Kroos são dois futebolistas que mediante as suas acções em campo tornam a equipa mais compacta em organização ofensiva, enquanto que no passado e pelas características dos jogadores existia uma clara divisão entre os que atacavam e os que tinham essencialmente funções defensivas. 
A estrutura actual apresenta assim um maior escalonamento dos elementos da equipa, já que assim os jogadores que fazem parte dos sectores defensivo e intermédio sentem-se mais cómodos para fazer a ligação entre a 1ª e a 2ª fase de construção ofensiva. Os centrais distanciam-se entre si enquanto que os laterais procuram a profundidade deixando espaço livre para os médios. Como consequência destes movimentos dos laterais, Cristiano Ronaldo e Gareth Bale já não esperam pela bola tão abertos e alternam os movimentos por dentro e por fora. Com esta premissa, o número de passes em campo próprio aumentou consideravelmente e a participação de determinados jogadores transforma-se notoriamente já que os espaços e os tempos são outros. Como a 1ª fase de construção esboça-se com outros cérebros e executa-se com outros pés, o que ocorre é que a bola sempre que entra no meio campo adversário, também este se desenvolve de forma diferente do passado. 


A CRIACÃO DE SITUACÕES DE DESIQUILIBRIO

Com Ronaldo e Bale sem a amplitude necessária para aproveitar a velocidade que possuem, James, Modric e os laterais preferencialmente Cavajal e Marcelo, tem sido fundamentais para gerar situações de superioridade posicionais e numéricas.  Benzema com a sua grande inteligência, ocupa os espaços que vão sendo criados pelas associações entre os jogadores exteriores. A jogada vai crescendo até que acelera nas botas dos velocistas ou nos que chegam pelos corredores numa segunda vaga. 
Cristiano, nestas circunstancias, tem um novo papel como finalizado no interior da área. Neste novo posicionamento e também um especialista, uma ameaça constante pela sua intuição para ocupar os bons espaços, e pela sua capacidade de impulsão. São já vários os golos conseguidos pelo Português de cabeça. Os médios aparecem vindos de trás aproximando-se da entrada da área para garantir o ganho das segundas bolas e procurar rematar de longa distância. James, Kroos e Modric rematam com muita facilidade e os seus níveis de eficácia são formidáveis.



OS PROBLEMAS QUANDO PERDEM A POSSE DA BOLA 

Diversos meios de comunicação social, perante a grande quantidade de golos sofridos, culparam a falta de atitude e a ausência de implicação defensiva de determinados futebolistas. O Real Madrid, até  à presente temporada atacava em muitas ocasiões com poucos jogadores e, quando perdia a posse, o seu equilíbrio defensivo estava garantido com a presença de muitos jogadores atrás da linha da bola. Os ataques eram tão rápidos que era difícil verificar uma grande quantidade de jogadores em situação ofensiva e à frente da linha da bola. Como os tempos para a chegada de jogadores vindos de trás não era suficiente, defender era uma atividade que raramente incluía os avançados. Os avançado não completavam a recuperação defensiva e a sua missão consistia em colocar-se sobre os espaços vitais para assim simplificar a construção da transição seguinte. Na situação anterior Xavi Alonso e Luka Modric eram mestres para abortar ou retardar as transições adversárias. 
Como actualmente ataca-se para favorecer a chegada a zonas mais ofensivas dos jogadores do sector defensivo, quando a equipa perde a posse de bola é imprescindível activar uma forte pressão sobre o portador, para assim permitir a recuperação dos jogadores desse mesmo sector defensivo. 
Para que este processo tenha bons resultados, todos os jogadores devem responsabilizar-se e não serem superados facilmente nessa primeira fase de pressão. Se o conjunto de Ancelotti é contra-atacado com muita frequência é porque os avançados não tem esses hábitos adquiridos ou não conseguiram compreender que tipo de defesa é a mais apropriada com base nos princípios ofensivos adoptados.  


CONCLUSÕES 

O Real Madrid, pela constituição do seu plantel, dispõe de alternativas que fazem com que o seu jogo
seja menos previsível. Ao jogo rápido e de invasão de espaços, une-se a opção de impor um estilo onde o domínio das zonas determinantes vem precedido de um acumular de passes e de jogadores perto da área. Quiçá, o tempo fará com que os seus jogadores mais decisivos tomem consciência da essencial obrigação de conectar-se com a recuperação da bola nos instantes seguintes à perda da bola.  




Comentários