A FILOSOFIA DE JOGO DE VAN GAAL


A típica combinação do Ajax de técnica, conhecimento, personalidade e velocidade de
acção é melhor expressa na criatividade e, por consequência num futebol de ataque.
Jogar um futebol de ataque, ousar correr riscos, não aceitar senão o melhor em termos de exprimir esta filosofia no campo, e ganhar prémios todos os anos.  

FILOSOFIA

DISCIPLINA DEVE SER A MINHA MAIOR FILOSOFIA. MAS NÃO CONFUNDIR COM AUTORITARISMO.

“O futebol é um desporto de equipa, e os seus membros estão assim dependentes uns dos outros. Se certos jogadores não realizarem correctamente as suas tarefas dentro do campo então os seus colegas vão sofrer as consequências. Isto significa que cada jogador tem de cumprir as suas tarefas básicas melhor que conseguir realizar, e isto requer disciplina dentro do campo. Na minha opinião só poderá ser conseguido se o jogador for igualmente disciplinado fora do campo. Quando estás em frente a um grupo de jogadores como treinador, tens de criar a melhor organização social, explicando o que envolve a disciplina, e o que se entende por isso. É claramente uma questão de detalhes: estar no vestiário 30 minutos antes de começar o treino; manter as suas coisas arrumadas e asseadas; sentar na mesa para almoçar todos juntos ao mesmo tempo, e não ler o jornal enquanto o fazem: cuidar do corpo; estar junto do autocarro da equipa à hora marcada depois de um jogo. Se um jogador não aceita estas regras, então em primeiro lugar eu tenho que falar com ele. Tento chama-lo à razão, e eu apenas imponho algo como último recurso, porque é a admissão de fraqueza por parte do treinador.

COMUNICAÇÃO

O segundo elemento da minha filosofia é a comunicação. No começo preparo situações nas quais os jogadores são obrigados, passo a passo, a comunicarem entre si e com o staff técnico. Segunda-feira é um dia importante neste contexto. Os tratamentos médicos neste dia eram prolongados no tempo, porque é uma ocasião em que os jogadores falam espontaneamente. Faz-se um exame rigoroso do último jogo. Nos primeiros dias a discussão era, na maioria dos clubes mais um monólogo do treinador. Graças à minha abordagem, a primeira reacção seguiu-se imediatamente, e genuínos diálogos eram realizados.
Numa semana normal de trabalho existia mais momentos como estes. Cada sessão de treino era uma forma de comunicação. As capacidades elas mesmas não eram tão importantes era mais uma questão de o que fazer com elas. Durante as sessões de treino os jogadores vêm, o que o treinador quer. Eu muitas vezes paro os jogos e desafio os jogadores a pensarem acerco dos problemas do futebol que estão a enfrentar. Graças aos meus onze anos como professor, eu tenho experiência suficiente para saber se devo intervir ou ficar calado, e para quem falar. Naturalmente eu explico mais aos jovens jogadores do que aos jogadores de 30 anos, que já criaram certos hábitos e provavelmente serão incapazes de os mudar.
Na terça-feira discutimos a prestação de cada jogador individualmente com toda a equipa técnica. Eu pergunto igualmente à equipa o que pensaram do último jogo e o que pensam do próximo adversário. Falo com os jogadores todos os dias. É então a minha tarefa como líder desta equipa, fazer a selecção de toda a informação disponível e decidir o rumo a seguir. Eu espero que todos em público defendam este rumo, porque não o fazer é simplesmente criar problemas.

CRIAÇÃO DA EQUIPA

Disciplina e continuada comunicação com todos inevitavelmente leva à construção da equipa. No futebol tudo depende dos aspectos da equipa. É por isso importante que cada jogador saiba o que os outros podem e não podem fazer. Têm que ser descobertas as habilidades de cada um, e isto automaticamente leva a um entendimento mútuo, o que é a base para os resultados. Todos os jogadores têm que aprender a colocar sempre à frente os interesses da equipa. Na construção da equipa não é seguro que todos gostem uns dos outros, mas que aprendam acerca das capacidades uns dos outros e que consigam falar sobre isso.
Eu repito é tudo acerca de comunicação e disciplina. O conceito era que nós tínhamos que vender um produto e esse produto era atacar e um futebol atractivo. O melhor sistema é aquele que seja suportado por jogadores e treinadores. Acordamos coisas em conjunto e depois vamos faze-las juntos.

LIVRO DE APONTAMENTOS

Serve para apontar os erros colectivos que vão contra os planos tácticos pré-estabelecidos. Por exemplo, o facto de o Litmanen (médio mais ofensivo) ser mais efectivo se jogar 10 metros mais à frente, porque isto terá consequências imediatas para os jogadores na sua retaguarda, que terão obrigatoriamente de subir no terreno. Anotar sempre erros individuais. Desta forma teremos uma sequência lógica de aspectos que poderão ser discutidos ao intervalo. A hipótese de se esquecer algo importante é imperdoável.
Além disso as notas são usadas para a conversa após o jogo, para outras formas de comunicação com os jogadores e claro para planear as sessões de treino. Se não se colocar o lápis no papel, é mais provável que se esqueça de alguma coisa.

CONVERSA PÓS JOGO

Podemos indicar exactamente o que correu bem e o que correu mal. Podemos particularizar, mas também podemos dirigir-nos ao grupo como um todo. Se durante a conversa após o jogo eu pegar nos aspectos positivos de um jogador, os outros jogadores deverão aceitar. Uma extensiva conversa após o jogo ensina ao jogador acerca da disciplina da equipa e auto disciplina, responsabilidade e responsabilidade colectiva. Só ai o todo será maior que a soma das partes.
Discutem-se os problemas entre os jogadores ocorridos durante o jogo e as falhas relativamente ao que estava anteriormente planeado.
Se existirem problemas entre os jogadores durante o jogo e estes tiverem uma reacção emocional, por mim tudo bem, porque o jogo é sobretudo emoção. Agora, espero que no dia seguinte estes tenham uma resposta racional, porque tudo não passa de uma questão de perdoar e esquecer.

TÁCTICAS

Jogar na defesa com uma zona posicional de marcação, com os defesas a ficarem na sua posição, marcando um adversário que entra na sua zona.
O número 10 tem que ser um exemplo pressionando o seu adversário.
No dias de hoje o jogador que realiza as funções de pivot à frente dos 4 defesas, tem que ser um jogador técnico e tacticamente bom. Os outros defesas também têm um papel importante na construção do jogo ofensivo.    

JOGADAS DE ESTRATÉGIA

Antes de um jogo normalmente digo aos jogadores que apenas podemos perder jogos através de jogadas de estratégia. Isto significa automaticamente que devemos estar mentalmente preparados para essas jogadas de bola parada. Analiso cuidadosamente as características dos adversários que são fortes nas jogadas aéreas.                                             
O segredo dos livres contra nós é que eu ponho toda a minha confiança no guarda-redes. Tenho que criar uma situação no campo na qual seja o adversário versus o guarda-redes. Isto significa que ao contrário dos outros guarda-redes o nosso nunca escolhe um dos lados da baliza. Ele fica sempre no meio. É claro que ele tem de ver a bola através da barreira. Asseguramos uma forma de o conseguir, mas custou-nos muito tempo. Primeiro temos que pensar em toda a situação, depois temos que conversar com o treinador de guarda-redes, e depois com o resto dos elementos da equipa técnica. Depois temos que a explicar a todos os elementos da equipa, discutir os prós e os contras, um por um, e praticar durante os treinos.
As primeiras vezes que executamos o plano em jogo, quase que resultava em golos para o adversário. Os jogadores esqueceram-se de mover para o lado no momento exacto para assim criar um espaço livre por onde o guarda-redes pudesse ver a bola.
O mesmo se passa com os cantos a favor. No momento que o canto é marcado um dos jogadores corre em direcção a um dos defesas que está a marcar um dos nossos avançados e bloqueia-o, com o resultado que o avançado fica sem marcação, especialmente porque o marcador acompanha o blocador.

O SISTEMA

POSSE DE BOLA – A característica mais importante é que a equipa tem muita posse de bola. Posse de bola não é garantia de vencer, mas tem a grande vantagem de obrigar o adversário a correr muito atrás da bola. Em contraste os nossos jogadores usam muito menos energia, porque podem circular a bola com velocidade e manter as suas posições (muitos triângulos no campo).
Os treinos servem para ensinar os jogadores a correr o menos possível. É por isso que os jogos posicionais têm um papel fundamental no nosso método de treino. Isto requer uma excelente técnica de passe, e a habilidade de receber a bola colocando-a de imediato na direcção que pretendemos jogar; a bola deve ser jogada para os colegas com velocidade. Importantes detalhes que apenas podem ser conseguidos pela repetição exaustiva durante os treinos e atenção máxima durante os jogos. É uma questão de treino e mais treino.

JOGO POSICIONAL

Os movimentos ofensivos começam quase sempre da defesa. O guarda-redes raramente pontapeia a bola para a frente. Normalmente passa a bola para o defesa mais criativo.   É perceptível que toda a equipa se movimenta a partir de um determinado modelo. Se um jogador recua disponibilizando-se para receber a bola, outro realiza um movimento em direcção à linha de baliza adversária.   Os médios interiores realizam muitos movimentos para a linha de baliza adversária, criando espaço para os passes longos desde a defesa para o Avançado centro, através de movimentos em amplitude.  Os mesmos médios interiores permanecem sempre atrás dos seus extremos, para não cortarem o seu raio de acção. O papel dos jogadores de meio campo é o de apoiar os avançados e nunca fazer coincidir a suas acções com os extremos. Se um ataque não pode ser continuado num dos flancos o papel dos jogadores de meio campo é o de assegurar que a bola seja transportada o mais rápido possível para o outro flanco.
O jogo desenrola-se quase sempre numa pequena área do meio campo adversário. Neste pequeno espaço, boa capacidade posicional, e a habilidade para criar espaço para os outros é de grande importância para a equipa. Isto também se aplica para os extremos. Os dois permanecem bem abertos criando espaço para o avançado centro. O objectivo principal é de que o avançado centro se movimente para o espaço vazio, recebendo passes longos desde zonas recuadas.


DEFESA

 O número 2 e 5 são defesas laterais interiores, e os números 3 e 4 são os dois jogadores do centro da linha defensiva. A primeira prioridade para os dois laterais interiores é que eles joguem de forma muito disciplinada. A sua força é a sua simplicidade. Quando em posse de bola devem jogar de forma impecável, já que devem escolher situações que não envolvam riscos de perder a bola. Preferencialmente jogam a bola para a frente, mas se não o conseguirem devem enviar a bola para o guarda-redes que desempenha o papel do antigo libero. Devem respeitar as suas funções de marcadores implacáveis com a máxima concentração. Outra característica é a velocidade, conhecimento táctico aprofundado (para conseguirem prever situações, sabendo antecipadamente quando devem fechar os espaços e/ou cobrir os colegas), a habilidade para usar os dois pés, e perfeita técnica de passe.
Não selecciona puros defesas para as posições 3 e 4. O número 4 passa mesmo a ser o playmaker da equipa. Quando a equipa está em posse de bola, é o jogador que se junta à equipa nas acções ofensivas desde o centro do terreno no momento exacto, e realiza os passes decisivos. Quando o adversário tem a posse da bola deve possuir suficientes conhecimentos tácticos para realizar as escolhas correctas; quando jogar em frente à defesa, quando jogar ao lado do nº 3, e quando tomar uma posição atrás dos outros defesas. Com a ajuda do nº3 deve dar o sinal para realizar o pressing. Deve igualmente estar atento às distâncias entre os jogadores que formam a espinha dorsal no centro e constantemente dar indicações para os outros jogadores. Este jogador tem que contribuir para as acções e os processos ofensivos, mas igualmente possuir o mesmo instinto matador dos laterais interiores se a equipa adversária jogar com 3 avançados e então ele terá que marcar o avançado centro adversário.

MÉDIOS

No nosso sistema o médio direito tem o número 6, médio esquerdo o número 8 e o médio central o número 10. Porque o nº 4 sobe no terreno quando a equipa tem a posse de bola, o nº 10 usualmente joga mais adiantada relativamente aos outros dois médios. Ele é por isso o mais importante marcador de golo da zona média. Quando a equipa perde a posse da bola, o nº 10 imediatamente cumpre as suas funções defensivas, e quando a equipa tem a posse de bola ele escolhe o momento exacto para aparecer ao lado do seu avançado centro como um segundo goleador.
Dos médios interiores (nº 6 e 8) espera-se que sejam capazes de realizar corridas com a bola.  Estas corridas têm como objectivo criar situações de 2x1, ou abrir espaço suficiente para que ele próprio finalize a jogada.
Quando a bola é perdida, estes médios devem conseguir analisar a situação e saber exactamente quando e como fechar os espaços. Devem ser jogadores com uma grande capacidade energética, muscular, pois têm que percorrer grandes distâncias durante o jogo. 
Como já foi mencionado o nº 4 é o quarto médio quando a equipa tem a posse de bola. Este jogador deve ter muitas das características de um verdadeiro jogador de meio campo, especialmente na vertente táctica.
Os jogadores que compõem a espinha dorsal da equipa estão sempre bem escalonados durante a fase ofensiva. As posições estão bem definidas, e é quase sempre possível jogar com o terceiro homem que fica livre depois do 2x1.  

  ATAQUE

Os extremos são o nº 7 e 11, com o avançado centro a usar o nº 9. Está sempre alguém perto das linhas laterais. Os dois extremos mantêm a área de jogo bem ampla, criando espaço para o avançado centro. A nossa jogada favorita é a de fazer um passe longo para o avançado centro, depois de ele se movimentar para o espaço vazio de defesas. O passe longo geralmente vem do coração da zona defensiva. Se este passe não pode ser efectuado, a bola é jogada para os extremos, pelo que os médios realizam movimentos para a frente e preparam-se para realizar uma situação de um-dois com o extremo. O extremo deve ser capaz de ler o jogo e tomar a decisão mais correcta: correr para a baliza, cruzar a bola, passar a um colega, ou envolver um terceiro colega na troca de passes.
Quando a equipa adversária tem a posse da bola os extremos têm que decidir se devem pressionar de imediato ou simplesmente tomar uma posição defensiva. Na fase seguinte eles terão que providenciar cobertura e ajudar o médio interior. Quando a bola é conquistada eles devem recolocar-se na sua posição original perto da linha lateral com o objectivo de criar espaço para os seus colegas. 
Os avançados tem outras qualidades para além de fazerem golos. Têm que ter a capacidade para fazer um-dois e criar espaço para os seus colegas. Porque jogamos numa área pequena do campo, os móveis meio campistas e em muitos casos, os defesas conseguem cobrir o campo rapidamente para entrar em zonas de finalização. Nas trocas de bola eles frequentemente executam o papel de terceiro homem, que fica livre depois do um-dois, muitas vezes como resultado da capacidade do avançado centro para jogar a um toque e para criar espaço.  


TÉCNICAS

A técnica de passe é algo que nunca devemos deixar de treinar. A nossa atenção é constante. Treinar, monitorizar e corrigir, são necessários, assegura que os jogadores mantêm-se em forma e alertas.

COORDENAÇÃO E VELOCIDADE

Exercícios de slalom, mudanças de direcção e exercícios de saltos fazem parte dos nossos exercícios diários, assim como exercícios posicionais e de finalização.
Todos os escalões fazem coordenação e treino de velocidade. Acima dos 16 anos, musculação e força explosiva.

TREINO DE COORDENAÇÃO

É uma questão de treinar a coordenação entre o sistema nervoso e o trabalho de pés. Um bom trabalho de pés é crucial para qualquer futebolista. Necessita de constantemente adaptar a sua maneira de correr à situação em que se encontra. Se existe muito espaço e a bola está longe, normalmente o jogador acelera e toma longos passos. Num espaço pequeno, com a bola perto, é preciso assegurar que o jogador consiga receber a bola a qualquer momento e também que ele possa mudar de direcção a qualquer momento. Precisa o jogador então de dar pequenos passos sem que perca velocidade. Normalmente usam-se obstáculos nas sessões de treino. Isto força os jogadores a adaptarem a distância das passadas. A distância dos obstáculos depende dos objectivos do treinador e da idade do jogador. Se uma frequência alta é necessária a distância entre obstáculos será menor. Obstáculos em altura ajudam ao treino dos joelhos.

TREINO DE VELOCIDADE

Um jogador de futebol corre de uma forma muito complexa durante um jogo de futebol. Precisa de reagir constantemente às situações de jogo, que envolvem continuas mudanças de velocidade e direcção. Normalmente o jogador não corre à máxima velocidade por mais de 5 segundos. Partida e capacidade de aceleração é uma questão de força muscular multiplicado pela velocidade à qual o músculo se contrai.
A aceleração é determinada pela força exercida na 1ª passada. Para os propósitos do treino é necessário diferenciar entre partidas estando o atleta imóvel, em movimento e partida lançada.
Treinar de preferência as partidas em explosão e em particular a 1ª passada.
Treinar a 1ª passada com elásticos.

SPRINTS

Melhorar a técnica de partida e velocidade.
Que tipo de velocidade precisa um jogador de futebol e em que situações.
Todas as situações de treino de velocidade devem ser consequência de uma análise do que o jogador precisa e de situações do jogo de futebol.
Jogos em espaço reduzido e com um número reduzido de jogadores tem como objectivo antecipar os movimentos dos colegas.
No entanto devem ser usados exercícios sem bola, já que em exercícios com bola os jogadores não conseguem atingir o limite da sua velocidade.

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