O MÉTODO BARÇA - PARTE II






O método Barça inventado por Laureano Ruiz, baseava toda a sua execução na técnica individual e nos Rondos. E porque os Rondos? Porque neles se consegue isolar e trabalhar quase as ações do jogo, desde as desmarcações até às fintas.
Tocar, tocar, é a bola e os espaços que mandam na equipa. Nos outros clubes os jogadores correm muito, no Barça a bola é que corre.


Entrevista de LAUREANO RUIZ formador de jogadores em LA MASIA.
Laureano Ruiz é um mestre genuíno. Uma instituição na formação de jogadores em Espanha. O Homem que construiu o método que revolucionou os escalões de formação do Barça.

P: Laureano, fala-se muito a este respeito, mas o que é o método Barça?
R: O método Barça supõe aprender a técnica individual, os rondos, o jogo de posição e conservação, o cabeceamento, o remate, os movimentos tácticos, e tudo repetido nas sessões de treino, mesclando com correções constantes: fazer, corrigir, repetir; fazer, corrigir, repetir... as correções são fundamentais.

P: Porque se diz que é um idioma?
R: O idioma Barça supõe a execução correta de tudo o que foi anteriormente mencionado, mas aprender este idioma tão diferente é laborioso e complicado. Os miúdos tem que aprender o porque das ideias e o estilo de jogo que supõe enganar os adversários. O futebol tem uma técnica muito complexa, como a natação, a ginástica, a patinagem, que deves aprender desde muito cedo se pretendemos que os jogadores chegam a profissionais. Por exemplo, os miúdos adquirem em poucos meses a capacidade de pronunciar corretamente idiomas distintos dos da sua língua materna, ainda que desconheçam a sua gramática. 

P: Escreve-se que foi você que plantou a semente, Cruyff fez evoluir a ideia e Guardiola aperfeiçoou-a. Foi assim o ciclo?
R: Nada de sementes, fui eu quem inventou o método. Cruyff e Guardiola copiaram, mas e vejo defeitos que sempre existem nas imitações.

P: Que defeitos viu?
R: São quatro os defeitos que detectei: 1) dominar, avassalar constantemente o adversário. Existe alturas que é melhor que o adversário respire, se adiante, para os atacarmos em contra-ataque; 2) com os ataques contínuos do Barça, existe o risco de contra-ataque do adversário já que nas costas dos defesas existem 40 metros livres, o que supõe que se a defesa não for rápida e forte nas situações de 1x1, as jogadas de golo do adversário podem ser constantes; 3) o Barça quer penetrar sempre por dentro. Com o rival aberto, parece-me correto. Mas se os 11 rivais estão metidos no seu ½ campo, deve-se procurar penetrar pelos corredores laterais e 4) se os rivais estão nas cordas, os remates longos podem originar golos, ou fazer com que o adversário, com medo, se adiante e assim poderão aparecer espaços livres. O Barça não remata e quer entrar com a bola pela cozinha dentro.

P: Você afirmou que há 40 anos , Xavi, Iniesta e Messi não teriam jogado na 1ª equipa. Porque está tão seguro?
R: Porque os técnicos da altura consideravam essas características inviáveis para chegar à 1ª equipa. Quando contratava um juvenil de pequena estatura, vinham dizer-me: ”Laureano as equipas de base estão para formar jogadores para a equipa principal, e estes rapazes jamais chegarão lá”. Eu perguntava porque e a resposta era que na 1ª divisão todos os futebolistas são altos e fortes. Por estes motivos esses grandíssimos jogadores que mencionei anteriormente nunca teriam jogado ao mais alto nível. Faz 11 anos David Silva foi fazer provas ao Real Madrid, mas foi recusado. Sabendo da sua imensa qualidade chamei Ramón Martínez para saber o que se tinha passado.
P: Que resposta te deram?
R: Que jogava muito bem, mas com a altura que tem nunca chegará à 1ª equipa.

P: Custa-lhe defender os miúdos com talento?
R: Quando cheguei a Barcelona fui ao gabinete técnico e na porta havia um cartaz que fiz desaparecer – que dizia: “Se vens oferecer um juvenil que mede menos de 180 cm, dá meia volta e vai embora”.

P: Qual foi o papel de Cruyff em toda esta escola?
R: Quando treinei Cruyff em 1976 encontrei-me para surpresa minha com alguém que gostava do futebol Inglês. Disse-lhe que ai só existe garra, luta constante e um trabalho físico constante. Tudo ao contrário do seu jogo, que exalta a habilidade, inteligência e talento. Quando 10 anos depois Johan voltou só queria jogadores de talento, qualidade e classe, sem importar-se com a escassa altura e o pouco peso. E como treinava a 1ª equipa fez com que as equipas de base atuassem da mesma maneira.

P: O que é Messi? Quanto trouxe da Argentina e quanto o ensinaram no Barça?
R: Messi é um fora de série, mas dentro das suas qualidades inatas muito aprendeu no Barça. Recordo que quando tinha 16 anos fez uma declaração que dizia: “aqui não se corre, faz-se tudo com bola”. Na realidade, corre-se com a bola”.

P: Há um mito: nasce-se futebolista. No Barcelona acredita-se que o futebolista se faz. O futebolista faz-se?
R: Quase toda a gente segue pensando que o futebolista já nasce futebolista. Pergunte aos futebolistas quantas horas na sua infância em cada dia se dedicou ao futebol? As respostas dos antigos iam de 6 a 8 horas e os atuais não menos de 4 horas.

P: Diga-nos um exemplo, então:
R: Cruyff é um bom exemplo; os que o viram jogar com aquela facilidade para fazer fácil o que parece difícil, pensavam que tinha nascido jogador. Não foi assim, Johan teve a sorte de nascer perto do estádio do Ajax e a sua mãe era funcionária do clube. Se tivesse nascido num ambiente eminentemente musical, com uns pais profissionais, dada a sua grande inteligência natural, teria sido um grande músico, mas não futebolista.

P: Para que servem os Rondos?
R: Os rondos fui eu que os inventei em 1957. O motivo era ensinar os meus jogadores a desmarcarem-se. Esta ação aparece ainda hoje como um defeito dos jogadores. E hoje são poucos os jogadores que o sabem fazer muito bem. Os rondos são muito importantes porque todas as ações do futebol – excepto o remate – estão presentes: marcações, desmarcações, antecipação, controlos invisíveis, passes, fintas, etc...

P: Se no método Barça, a equipa defende-se, atacando, pressionando...Nesse objectivo de asfixiar o adversário, Cholo Simeone é um dos melhores expoentes.
R: Simeone utiliza o pressing, e muito bem por certo. Mas enquanto que eu o faço no ½ campo adversário, ele faz o mesmo perto da sua área.

P: A partir de que idade se deve começar a trabalhar a táctica?
R: Os miúdos devem começar a jogar aos 8-9 anos, mas o trabalho deve ser unicamente técnico. A táctica é muito complicada de ensinar, pelo que devem esperar. Aos 11 anos é quando se deve começar a ensinar mas de forma gradual e crescente.

P: Servem os passes para trás para melhorar o jogo posicional?
R: Se desse passe para trás, nascer um passe em profundidade, perfeito, no entanto esses passes horizontais, ou para trás realizados de forma sistemática parecem-me um “cancro” para o futebol.

P: Você levou o 1-3-4-3 para o Barcelona. Custou que os jogadores o entendessem? Para a sua época era um sistema inovador, quase uma estravagância.
R: Agrada-me chamar de 1-3-4-3 fantasia. Para que tenham uma ideia das dificuldades que tive, só digo-lhe que pouco depois de chegar, numa palestra com as 3 equipas juvenis, os capitães pediram para falar comigo à frente de todos os companheiros. Disseram: “já nos treinaram grandes técnicos e jamais nos ensinaram nada parecido. Não entendemos nada de nada.

P: E uma vez dominado o jogo, o que se faz?
R: Temos que incluir uma componente psicológica...

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