AIMAR: FUTEBOL DOS PÉS À CABEÇA.




Pablo Aimar como jogador foi dono de uma técnica apuradíssima aliada a uma grande velocidade, permitindo-lhe ser um médio organizador de jogo e desiquilibrador em simultâneo. Aimar possuía ainda uma grande visão de jogo, o que lhe fez criar linhas de passe para fazer assistências aos companheiros de equipa. O agora treinador da seleção sub17 Argentina de futebol, mostrou, numa recente entrevista, que a qualidade do seu jogo, não estava apenas nos seus pés, mas também na sua imensa inteligência.
Quando questionado sobre a forma como vemos e consumimos o futebol, não se coibiu de dizer que "temos que começar a falar de futebol. Tudo o que se puder falar. Mas para falar de futebol é necessário querer falar de futebol. Temos que o jogar. Penso que para isso não precisamos de uma preparação académica, porque realmente temos muitos degraus por onde entrar, que podíamos estar o dia todo a falar sobre isto. Quem sabe de futebol? O que ganha? Creio que não. Creio que aquele que sabe mais é aquele que consegue melhorar os seus jogadores e o conhecimento que eles têm do jogo. Aí está a mãe de todas as conversas. No entanto falamos sobre outras coisas. Menores, mas que vendem mais”. 
Neste momento não podemos deixar de relembrar os imensos programas televisivos, em que se fala de tudo, menos do essencial, futebol.
A explicação que Aimar nos fornece também é curiosa, quando ele diz que “como podes pedir a um tipo que trabalha 10 horas que passe a entender a lógica disto? Se afinal o que as pessoas querem é sentar-se no sofá a descansar e que o entretenham. Olha eu próprio já consumi algum lixo. Passa com todos”.
O futebol é um jogo colectivo e Aimar é da opinião que “a equipa de futebol que consegue evitar o pensamento individual, prevalece. Existe uma bola e 22 jogadores e cada um desses jogadores toca na bola durante 3 minutos, nos 90 minutos de jogo. Ou seja, cada jogador está 87 minutos sem tocar na bola. Então se tu te conseguires movimentar para que o golo seja feito por um companheiro, és um génio. No final os melhores jogadores, são aqueles que fazem jogar os outros. Joguei com alguns desses jogadores que não falam, mas fazem de ti melhor jogador.
Podes ter o melhor lateral do mundo, rápido como o Bolt, com técnica, mas se lhe passas a bola para trás, este passa a ser o pior do mundo.
Para Aimar, um dos melhores foi Leo Astrada, “que não era um portento físico nem era tecnicamente mágico, mas era inteligente. Passava-te a bola e logo ficavas em vantagem e falava contigo. Desmarcava-se para que a devolvessem. Estava a fazer de nós melhores jogadores. Não sei se ele tinha consciência disso”.
E quando questionado sobre aqueles jogadores que não têm naturalmente estas características a sua opinião é que “poderão também eles chegar a um patamar de excelência, no entanto têm que adorar o jogo.  Podes ter o melhor professor de guitarra, mas se não gostas de tocar...Se tens um jogador com paixão pelo jogo, podes compromete-lo. Gosto muito desta parte do desporto. Porque tive gente que me ensinou, agora é a minha vez de seguir esse caminho e ensinar as gerações futuras. Vivi isso com Pékerman e ainda hoje recordo-me dos seus ensinamentos. Parava o treino e dizia-me: Onde está a solução?”
“Um futebolista só melhora se sentir paixão pelo que faz. Sem paixão não consegues desfrutar, sem paixão pelo futebol, não existe nada. Necessitamos desse amadorismo.”

Quem salva o futebol? São os tipos apaixonados que nos fazem melhorar?

“É difícil dizer. Se falamos de qualidade do espetáculo, infelizmente por cá não existe muito. Existem alguns jogos bons, mas cada vez menos. Somos a última geração que vê jogos completos, porque estão mais acostumados ao efémero. O jogo da playstation duram 5 a 7 minutos. Estão acostumados aos resumos. A ver no telemóvel os golos de todo o mundo. São vitimas deste estímulo. Continuamos à espera de uma jogadita. Quando existem jogos divertidos aí sim, aí fica mais fácil.
Conservar o amadorismo não significa não ter estratégia. Significa treinar com um sorriso. É filosófico, não de sistemas.”
Sobre Messi tem a opinião de que este, dos últimos 2, 3 anos é o melhor Messi. E quais as razões desta opinião? “Observamos um jogo de Messi aos 20 anos e não te podias distrair por um segundo, porque passava por meia dúzia de jogadores com uma simples jogada. Agora não dribla um monte de adversários 10 vezes por jogo. Faz isso duas vezes. Uma vez. Mas vai fazê-lo no momento em que o tem de fazer, e no lugar que o tem de fazer. Toca quando tem de tocar. Recebe quando tem de receber. Sabe quando tem de passar. Podias perguntar-se quais dos dois Messis são melhores para ver. Digo-te o de 20 anos. Mas o que joga melhor é o de agora”. 

Mesmo quando não faz nada, está a fazer alguma coisa...

Claro. Mas existem coisas difíceis de explicar. Messi joga 70 partidas por ano e se corre 12 km por jogo, vai lesionar-se ao jogo 30. Não é tão complicado olhar para isto. Joga 70 e define 60 a 65 jogos. É terrível isso.
Messi sabe tudo o que há para saber sobre futebol. Sabe quando juntar gente para passar a outro. Sabe quando encarar o adversário. Sabe quando ficar com ela. Sabe quando acelerar. Quando jogar a 1 toque, 2 toques, quando deve receber, quando não deve receber. A sua maturidade não surpreende. Messi é futebol total.  

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